NA RUA
por paulo fehlauer


    Rua: Inspiração

    Av. Paulista

    “Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão”. João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas, 1905.

    Certo dia, encontrei o texto abaixo, num daqueles acasos que nos faz acreditar em destino:

    “A rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (…) Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres (…) A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas”. João do Rio, idem.

    O cronista carioca João do Rio descreveu essa alma encantadora que há na rua em 1905 - início do século XX. A cidade do Rio de Janeiro ainda acordava do sono do Império e se acostumava à urbanidade da República. João tirou da rua o que ela tinha de essência.

    “Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes, a arte de flanar. Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir (…), é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina…” João do Rio, idem.