NA RUA
por paulo fehlauer


    Sobre jornalismo, publicidade, cerveja e Gregor Samsa Twit-it!

    August 1st, 2008  |  Publicado em Comentário  |  7 Comentários

    Capa-publicidade na Ilustrada do dia 31/07/2008.

    Capa-publicidade na Ilustrada do dia 31/07/2008.

    Lembro-me dos dias em que, recém-chegado à Escola de Comunicações e Artes da USP, discutia com os colegas do prédio vizinho (Publicidade, RP e Turismo) sobre as onto e deontologias de nossas respectivas carreiras. Diante das minhas críticas à atividade publicitária, respondiam-me alguns futuros publicitários que o jornalismo seria ainda mais vil, por fingir-se verdadeiro. Na mesma época, indo e voltando à ECA quase que diariamente pela Praça do Relógio, martelava-me a célebre frase de Fred Zero Quatro pichada em uma parede: "Jornalistas mortos não mentem". Pois bem. Vejam a capa do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo de ontem (clique na imagem para abrir em tamanho maior). À primeira vista, estranha, fora dos padrões. Só não comecei a ler a matéria porque meus olhos chegaram antes ao "Informe Publicitário" escrito em letras pequenas sobre o título. Só então foi que encontrei a também pequena menção publicitária: "É melhor olhar com cuidado onde apóia o copo de Serramalte". Voltei aos primeiros dias de faculdade porque discutíamos justamente a confusão e as promiscuidades entre as diversas vertentes da comunicação. Da Serramalte, digo, AmBev, digo, InBev-Anheuser Busch, e dos seus publicitários, não espero nada, a lógica corporativa é essa, e só pode piorar. Aproprie-se da identidade alheia e transforme-a em produto. Aliás, cerveja e cigarro são dois temas que fazem mesmo os "revolucionários" terem vistas grossas. Conhecendo a Folha por dentro, também não espero muito - entre o departamento Editorial e o Comercial, o pêndulo sempre vai pender para o segundo. O próprio ombudsman do jornal, jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, criticou o anúncio em seu comentário diário:
    O tema cultural do texto publicitário (que anuncia cerveja), a utilização de crédito quase idêntico ao que a Folha usa (da reportagem local), o logotipo do suplemento encimando o material publicitário como se este fosse uma reportagem, tudo é muito estranho, muito atemorizante.
    Abro então o jornal para ver a capa real (abaixo).
    Capa 'oficial' da Ilustrada do dia 31/07/2008.

    Capa 'oficial' da Ilustrada do dia 31/07/2008.

    Onde está o conteúdo mesmo? Como disse, não espero hoje muito mais da Folha do que da AmBev, o que, no caso, é um problema. Permitir um anúncio pseudo-jornalístico ocupando a primeira página de um dos cadernos mais nobres do jornal é, no mínimo, abrir mão da própria independência, da própria integridade. Imagine sair na rua com o rosto escondido em uma caixa de Sucrilhos. Como apontou Naomi Klein em seu livro Sem Logo (leitura recomendada), "aos poucos, as marcas vão nos roubando a identidade".
    A Metamorfose virou O Processo.

    A Metamorfose virou O Processo.

    O curioso é que a pseudo-matéria trata da disponibilização gratuita de livros na web, sem mencionar sequer uma vez a cerveja. E ainda consegue colocar Gregor Samsa, metamorfoseado em inseto, em O Processo. Talvez seja subliminar, quem sabe? Complicado. A conclusão a que chego é que precisamos, urgentemente, de um novo jornalismo. Mas, enquanto não chegamos lá, vou abrindo Serramaltes em agradecimento pelo meu salário.

    Comentários

    1. leo caobelli diz:

      August 1st, 2008às 6:09 pm(#)

      Pois bem, o que é pior?
      O anúncio tosco da capa real, ou a capa paraguaia?
      E o pior dos piores, imagina quando pautaram a foto de "capa" da ilustrada "real", pra depois fazerem dela um pequeno objeto que lembra os anúncios de revistinha de bairro.
      O Anúncio vira matéria, a matéria vira anúncio e o que se anuncia mesmo é a decadência do que hoje só se pode nomear como indústria da informação.
      E pasme, ela não informa em escala industrial!

    2. renata ribeiro diz:

      August 2nd, 2008às 10:13 am(#)

      A primeira coisa que me veio à cabeça quando peguei o caderno também foram os primeiros anos de Jornalismo (neste caso todos, os únicos). No entanto, me lembrei mais particularmente de uma certa vez, em aula da Folha, em que perguntei se não concordavam que sofreriam uma perda de credibilidade ao ocuparem quase toda a capa da Ilustrada com publicidade. Obviamente, a resposta que obtive foi da necessidade de atrair recursos — afinal, a mídia está em crise — e a publicidade "nos paga muito bem".

    3. Francesco diz:

      August 3rd, 2008às 3:52 pm(#)

      Tudo o que foi falado pelo Paulo e os comentaristas dop ost esta' certo, porem falta uma parte da analise, a parte relativa aos leitores.

      Se os leitores reclamassem em massa contra o publicitario e o editor por este tipo de "invasao", voces acham que publicitario e editor continuariam a ser tao ousados?

      Eu entendo que nao. Porem, o ponto e' que 99,9% dos leitores nao estao nem ai. Consequentemente, o publicitario paga o editor para "invadir" mais, e o editor, por razoes praticas (money) aceita, sendo que os dois nao tem que enfrentar nenhum risco por isso.

      E' inutil culpar exclusivamente os marketeiros, eles refletem simplesemente o nivel de apatia do povo, e se aproveitam disso.

    4. subjetivo | Leo Caobelli diz:

      August 5th, 2008às 11:41 am(#)

      [...] Ok, os defensores do papel jornal que suja a mão depois de lido vão bradar que lhes falta espaço físico para longos ensaios, que a cada dia é mais difícil vender jornal, que o comercial sustenta toda uma redação e por isso as anúncios publicitário tem mais destaque do que a foto de capa. Falando em publicidade, não é estranho que nenhum jornal tenha dado muito espaço após para o “aniversário” de um ano do maior acidente aéreo brasileiro? O departamento comercial da TAM fez a lição de casa direitinho. E é de se perguntar por qual companhia aérea voam os jornalistas quando permutados. (sobre jornalismo x publicidade indico o ótimo post do amigo Fehlauer, aqui) [...]

    5. Rafael Hupsel diz:

      August 6th, 2008às 12:21 am(#)

      Interessante sua abordagem, Paulo. Me fez lembrar a época da tragédia da TAM, há mais ou menos um ano atrás. No dia seguinte ao da tragédia, o caderno Cotidiano da Folha de SP preparou um especial recheado com belas imagens do acidente. E qual a minha surpresa quando abro as páginas centrais do caderno e encontro um enorme anúncio das Casas Bahia ocupando praticamente uma página dupla.
      Será que um limite ético foi ultrapassado nessa atitude?

    6. Normando diz:

      August 6th, 2008às 11:05 pm(#)

      Interessante, também, é a presença do trecho do conto "A Carteira", de Machado de Assis... O conto trata do drama de um sujeito endividado que encontra uma carteira recheada de dinheiro e fica no dilema sobre procurar o dono ou utilizar o dinheiro para pagar suas dívidas...
      No final (atenção, spoiler!!!) acaba descobrindo que a carteira é de um amigo e, ainda em tentação, devolve a carteira ao amigo que está em sua casa, apreensivo... Mas por sua tendência à honestidade deixou de ler o bilhete de amor da esposa para o amigo, que encontrou também na carteira e não abriu...
      A citação seria obra de um publicitário em auto-crítica, ou ironia com a situação da veiculadora do anúncio???

    7. Paulo Fehlauer diz:

      August 11th, 2008às 3:47 am(#)

      Olha só, Normando, sabe que eu nem tinha prestado atenção? Sinceramente, duvido que tenha sido auto-crítica ou ironia. Talvez o livro mais próximo? Também tenho minhas dúvidas, vai saber...

    Deixe a sua mensagem