NA RUA
por paulo fehlauer


    Havana em um gole e uma baforada Twit-it!

    July 17th, 2008  |  Publicado em Comentário  |  3 Comentários

    VIAGEM A HAVANA


    Havana cheira a um misto de lixo e água podre, que fermenta e borbulha nos bueiros entupidos que decoram as esquinas. Cheira também a fumaça de tabaco, expelida por bocas tão douradas quanto mal cuidadas, e a óleo queimado, disperso no ar em nuvens negras pelos enormes Chevrolet remanescentes da “era americana”. A fumaça faria chorar o gringo que se proclama consciente. Ecologia é para quem pode; sustentável é o carro que dura mais de cinco décadas, literalmente sustentado por peças produzidas nos fundos de quintais de casas ainda mais decrépitas. Da lista de supérfluos, a higiene se esconde por detrás de bandos de moscas que varejam por sobre a carne supostamente fresca, exposta ao sol (e, ainda assim, a expectativa de vida cubana é de 65 anos, tal como a brasileira), paga pelos cubanos na moneda nacional, dinheiro de brinquedo que faz lembrar as longas horas que já passei jogando Banco Imobiliário, quando me sentia dono da Avenida Rebouças, assim como o povo cubano se sente dono de seu país, comprado diariamente a preços irrisórios ao olhar estrangeiro, que paga um dólar inteiro por um café que, para o nativo, custa menos de cinco centavos. Indignada, a cubana que viu a cena sugere que, da próxima vez, procuremos a polícia, que, ironicamente, está do nosso lado, e não do cidadão cubano. Um senhor conversa tranquilamente conosco quando, sem aviso, um policial o chama de lado, e o adverte a não extorquir dinheiro dos turistas. Não que ele o estivesse fazendo, mas a minha palavra, contra a do policial, não significa muito nesse momento. Tudo isso para que o dinheiro estrangeiro continue fluindo, entrando nas veias dessa frágil economia, seja pelas vias oficiais ou pelas entranhas de um submundo que permite aos espertos cubanos satisfazer os pequenos desejos consumistas com que são bombardeados todos os dias, seja pelo contraste entre a vida local e a imagem do turista, seja pelo estilo Rio Zona Sul, propagandeado pelas novelas globais que, entre outros, facilitam a vida do turista brasileiro, já que a cada esquina se encontra um pequeno ronaldinho, vestido de verde e amarelo, que vislumbra um país que se parece muito com o seu, mas que não pode visitar, nem que tenha dinheiro. E ai de quem reclamar. Ou seja, um povo feliz. Como o nosso. Veja abaixo uma seleção de fotos da viagem, e aguarde novidades no site da Garapa. Veja as fotos também no Flickr.

    Comentários

    1. Francesco diz:

      July 17th, 2008às 10:27 am(#)

      Belo post, Paulo.

      Agora, a expectativa de vida em Cuba é 78 anos, no Brasil 72

      http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_life_expectancy#List_by_the_CIA_World_Factbook_.282007_estimates.29

    2. júlia tavares diz:

      July 19th, 2008às 4:53 pm(#)

      Obrigada por dividir esse gole (de rum?) e essa baforada (de charuto?) comigo. Lindas imagens, belos escritos. Um beijo com muitas saudades.

    3. Maria Eduarda diz:

      July 21st, 2008às 11:16 pm(#)

      Paulo,

      vc não me conhece, mas não faz diferença. Não tenho paciência, inclinação ou tempo pra ficar comentando em blogs, sites, listas de discussão etc. Mas abri uma exceção pra registrar que suas fotos fascinam, me desmontam. Aliás, o Garapa (que não é aqui, eu sei) todo é muito bom. Vcs mandam muito. Quisera eu fotografar assim. Parabéns.

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