O Dilema do Pirata
July 16th, 2008 | Publicado em Comentário | 1 Comentário
Uma das coisas que mais me anima em relação à internet é a forma como estamos questionando as estruturas estabelecidas, seja do mercado, da comunicação, da criação. Claro que há um lado bem mainstream, e boa parte das pessoas que usam a rede diariamente sequer vêem algum outro lado; mesmo assim, a internet é o espaço para essa conquista.
Exemplo: a TV, mídia de massa por excelência, pressupõe uma uniformidade na audiência que é, obviamente, irreal. Alguém perguntou uma vez: o que faz pensar que 190 milhões de brasileiros desejem, exatamente no mesmo instante, ver as faces maquiadas de Bonner & Fátima?
É essa a lógica que, mesmo sem saber, questionamos. Menos monólogos, mais diálogos, triálogos etc. Com o YouTube e similares, questionamos a TV; com podcasts, o rádio; com os blogs, a mídia impressa; com o MP3, a indústria fonográfica, e por aí vai. Diria até que, com redes sociais - orkuts e facebooks da vida - questionamos a própria forma como nos relacionamos.
Nada disso é muito novo e, como era de se esperar, o próprio mainstream vai (tardiamente, eu diria) absorvendo essa cultura e recriando seus próprios métodos. A Apple virou a indústria fonográfica de cabeça para baixo com o iTunes, vários veículos de imprensa passaram a usar (na maioria das vezes, mal) conteúdo produzido pelo usuário. O problema desse processo é a lógica da banda obscura: quando vira pop, estraga.
Todo esse blablablá é para introduzir um livro/site que conheci ontem, ironicamente, através de um jornal impresso: The Pirate’s Dilemma - How Youth Culture Reinvented Capitalism (O Dilema do Pirata - Como a cultura jovem reinventou o capitalismo).
O livro foi escrito por Matt Mason, economista frustrado e ex-DJ de rádios piratas do Reino Unido, e traça paralelos históricos de pessoas e atividades, antes vistas como “piratas”, que acabaram por reinventar o modo como o mundo se comportava. Quando Thomas Edison inventou o fonógrafo, por exemplo, ele foi criticado por muitos músicos, que achavam que ninguém mais iria aos concertos - o mesmo ocorreu com a fotografia e os pintores, e o resultado histórico, voilá, foi o Impressionismo.
A pirataria digital e a cultura do remix (Open Source, Creative Commons etc.) seriam, nesse paralelo, o novo motor de transformação do mercado e da sociedade, reinventando a forma como produzimos e trocamos informações - visão que ratifico.
O ponto de vista do autor é bem mercadológico, tanto que o dilema mencionado no título se resume a um remix hamletiano: “Competir [com os piratas] ou não competir, eis a questão”. A vantagem desse olhar, para nós questionadores convictos, é que o mundo business se torna mais permeável, e pode ficar (assim espero) um pouco menos difícil emplacar bons projetos. Se o Senador Azeredo, por exemplo, pensasse em tudo isso, talvez arquivasse o seu substitutivo.
Acho que vou mandar o livro para ele, é de graça mesmo…
P.S.: Não apóio a compra de CDs e DVDs piratas - só faço vista grossa porque sei que o povo precisa sobreviver. Me arrisco a afirmar que a indústria da pirataria é tão perversa quanto as corporações. Confira algumas dicas abaixo:
Remixes
Conteúdo produzido pelo usuário
Downloads
- One Big Torrent (banco de filmes para download, com foco em documentários)
- Open Subtitles (banco de legendas para filmes, produzidas por voluntários)









July 17th, 2008às 10:22 am(#)
Belisimo post, Paulo. Um ponto chave é quanto competido é um mercado / business.
Até quando um mercado é muito competido, com diferentes empresas se matando para servir o usuario, eu nao vejo nenhuma justificativa moral à pirataria.
Agora, quando um mercado vira um claro oligopolio, um cartel que da dinheiro facil (os exemplos são infinitos: industria farmaceutica, industria fonografica, telecom em muitos paises - inclusive Brasil), o quando os impostos sao uma clara prevaricação do direito a um preço justo do consumidor, ai se abre uma brecha moral, ai fazer olho grosso começa a fazer sentido.
No final, porque eu tenho que pagar um CD importado aqui no Brasil 100 Reais?
E porque 8 Mega da Net custam aqui no Brasil 150 Reais (60 Euro), em quanto na Espanha ou na França com 20 Euros vc compra 20 Mega?