Do Meu Papel no Circo (Caso Isabella)
April 21st, 2008 | Publicado em Comentário | 1 Comentário

Nos últimos dias, considerei-me uma pessoa de sorte. Mesmo trabalhando em jornal diário, não tive participação significante na cobertura do “caso Isabella Nardoni”. Sorte não só porque escapei das longas horas em frente a delegacias e casas alheias, mas porque não fui obrigado a dar a minha colaboração a um circo midiático que só é predatório, um show de horrores apresentado incansavelmente sob a alcunha de “jornalismo”. Escapei de ter que explorar vidas alheias em função de um espetáculo criado com o único fim de aterrorizar e anestesiar a platéia.
Alguns dias atrás, um amigo me contou uma história que me chocou mais do que qualquer matéria que eu tenha visto sobre o caso. Ao cobrir a prisão preventiva da madrasta de Isabella, Anna Carolina Jatobá, em uma prisão feminina no Morumbi, repórteres de um jornal popular da televisão incitavam as detentas a “lincharem” verbalmente a suspeita, que ainda não tinha sequer sido acusada do crime. Ou seja, se não há notícia, nós a criamos.
Mais absurdo que isso foi a cena da semana passada, em que dezenas (ou centenas?) de pessoas se acotovelavam em frente à delegacia, que tinha arranjado banheiros químicos e gradis de proteção. Felizmente, eu não estava lá, mas já imagino um pipoqueiro, carrinho de cachorro-quente e, por que não?, um esperto vendendo pedras para serem atiradas. Se isso não é espetáculo, o que é? (Odeio citar nomes, mas Guy Debord deve estar sacolejando no caixão.)
Sinceramente, não sei o que incomoda mais, se o povo que, ignorante, não se liga no absurdo da situação, confunde com mais uma novela da Globo, ou se é a imprensa selvagem, sanguinária, que, na busca por audiência, ultrapassa todos os limites do respeito à pessoa e do bom jornalismo.
Aos profissionais que participam ativamente da cobertura: estamos mesmo tão presos a contratos de trabalho para nos sujeitarmos a isso? Não temos mesmo voz nenhuma? Aceitamos deixar a nossa vida de lado e trabalhar 20 horas diárias para prestar um desserviço à sociedade? Era realmente isso que você sonhou fazer quando escolheu essa profissão tão ingrata? Pergunto isso para não pensar o pior, que somos tão idiotas e rasos quanto o espetáculo que produzimos.
E se fizéssemos todos uma greve, se nos recusássemos a participar desse pastelão?
P.S.: O tiro no pé desse caso é que não existe ‘choque de classes’, não dá pra pedir a redução da maioridade penal, não dá pra questionar nada a não ser a própria natureza humana.
Confira aqui um audio-slideshow que produzimos sobre os bastidores da cobertura. A produção é da Garapa, projeto de jornalismo multimídia meu e dos fotógrafos Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes:
Visite nosso site: www.garapa.org








April 29th, 2008às 6:34 pm(#)
É no mínimo inquietante, de fato, o jeito que a imprensa tá cobrindo os fatos que envolvem o assassinato. Mas, sinceramente, já estou de saco cheio até mesmo de reclamar sobre esses traços de espetáculo do episódio. Prefiro o boicote, puro e simples. Não leio mais nada sobre isso até haver, de fato, alguma novidade.
Sobre o publico.org, estou ansiosa e curiosa.