Diadema, Europa, Brasil, Parte II
November 1st, 2007 | Publicado em Jornalismo

- Tira uma foto comigo?, pergunta o menino.
- Claro, respondo, mas por quê?
- Ah, você não é aquele piloto de Formula Um?
- Não, é esse cara aqui do meu lado.
Faz muito mais sentido, na cabeça dele, eu, branco e de olhos claros, ser o vice-campeão de Formula 1 Lewis Hamilton, do que aquele moleque tão franzino e preto como a maioria dos que o esperam ali.
Segundo dia, segunda parte da visita dos “gringos” ao Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. Poderia intitulá-lo “O dia em que levei o piloto à favela”, mas isso daria muita importância ao visitante ilustre, o que acabaria ofuscando meu objetivo com esse texto.
Hora de enfim apresentar o Beija-Flor aos convidados, e colocá-los na roda, na banda, na sujeira. Como disse no texto anterior, o projeto tenta, com relativo sucesso, dar alguma oportunidade a crianças e adolescentes carentes da cidade de Diadema. Para muitos, é uma segunda casa, um lugar onde podem ser o que quiserem, artistas, esportistas, empreendedores, punk-break-dancers, ou mesmo apenas crianças.
Vamos passeando pelo lugar, imenso, colorido e cativante. Aulas de música, dança, capoeira, pintura; projetos de geração de renda, um estúdio de gravação, uma sala de informática, uma cozinha comunitária, tudo isso em uma paisagem, física e humana, estonteante.
O projeto hoje está em expansão, e para isso, em vez de contratar um grupo de especialistas, ou universitários conscientes, eles resolveram treinar um grupo de 25 jovens da comunidade, que vão em breve tomar conta de uma nova sede, que está sendo construída no Sítio Joaninha. Aliás, é fácil perceber que ali não há classe média compadecida, não há regras ditadas, mas uma troca constante de experiências. Em tempos de Tropa de Elite, é algo para se pensar.
No meio do dia, um bate-papo coletivo, troca de curiosidades mútuas. “Como é a vida na Suíça?”, “Como é a escola de vocês?”, “Por que querem ajudar o nosso projeto?”. No final, uma apresentação especial, um Romeu e Julieta à brasileira, tal como o bife. Arroz, feijão, ovo, fritas, capoeira, break e forró, tudo bem misturado ao gosto nacional.
Aos que, como eu, acostumados ao assistencialismo barato que é amplamente divulgado, mantêm um, ou os dois, pés atrás em relação a qualquer ode ao trabalho social, sugiro uma visita ao projeto. Ouça as histórias que Gregory tem a contar, ou melhor, ouça os próprios jovens, e forme a sua própria opinião. Confira também o trabalho de D. Ordalina, cabeleireira e pintora. Talvez você não goste, talvez o retrato da favela nos seus quadros não corresponda à visão novelística/cinematográfica que temos dela.
D. Ordalina tinha um salão de beleza na favela. Gregory queria dar um novo ‘look’ aos então recém-adotados meninos de rua, quer dizer, filhos. Ordalina foi a única a aceitar a difícil tarefa de pôr as mãos em cabelos sujos, cheios de piolhos e outros parasitas. Antes de ser cabeleireira, ela pintava; hoje, faz os dois. Corta cabelos no pequeno salão que faz parte do projeto, e ensina as crianças a expressarem-se na tela.
A visita acaba em festa (junina, por sinal), e mais uma vez os mundos se dividem. Ficam para trás as crianças, a pobreza, a festa. A estrada volta a embranquecer, a paisagem volta a endurecer no concreto. Restam a saudade e as vagas promessas de reencontro.
Penso que ainda não há como imaginar um mundo igualitário, a distância é muito grande, o fosso muito profundo. Mas fico com a ingênua impressão de que, dada a realidade, algo significativo aconteceu nesses dois dias. Ninguém vai colocar o pobre no Hilton Hotel, nem o rico vai abrir mão do seu conforto, mas penso que a mudança possível e desejável passa por esse diálogo sincero e aberto não entre classes, mas entre pessoas, independente da camada social ou cultural em que estejam. O que acham?
Ah, faltou falar do piloto. Lewis caiu nas graças da galera, como podem ver pelas fotos. Aliás, tenho a impressão de que muitos ali não faziam idéia de quem ele era, mas meu pai falou que ele é importante então eu vou pedir um autógrafo. Tirando a óbvia tietagem em volta dele, Lewis era o menos gringo dos gringos, mas isso o menino lá do começo do texto já tinha percebido.







