NA RUA
por paulo fehlauer


Diadema, Europa, Brasil, Parte I

October 24th, 2007  |  Publicado em Jornalismo  |  1 Comentário

Joao Vitor

- Moço, você é brasileiro?, pergunta o menino.
- Sim, respondo, por quê?
- Não parece, não é igual à gente.

No dia da visita dos “gringos”, o garoto achou que eu fora o primeiro deles a chegar, tamanho o contraste. Tive que explicar que ele tinha razão, minha família não veio do Brasil, e sim da Alemanha, mas que isso aconteceu faz muito tempo, e que tanto eu quanto meus pais já nascemos por aqui. Não sei se ele entendeu.

Necessário parênteses explicativo:
Faz um mês que comecei a frequentar o Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. O projeto foi fundado pelo norueguês Gregory Smith, que há 15 anos veio para o Brasil para tirar crianças das ruas de um país que mal conhecia, e hoje atende mais de 600 jovens. Nos dias 22 e 23 de outubro, o espaço recebeu a visita da família Ojjeh, uma das donas da escuderia de Formula 1 McLaren e apoiadores até então anônimos do projeto. A idéia era conhecer tanto o espaço quanto a comunidade. Ao fim de dois dias, no entanto, a experiência foi bem além disso, como espero mostrar com esse texto.

Fecha parênteses.

O motivo da pergunta lá do começo é óbvio. Branco e de olhos claros, mesmo falando a mesma língua, ali estou muito mais próximo dos visitantes europeus do que dos colegas brasileiros, apesar de morar a apenas uma hora de Diadema e a várias da Suíça.
2 days

Seguimos por uma estrada sinuosa, cortando uma cidade que, do alto, deve parecer uma colcha de minúsculos retalhos, todos mais ou menos quadrados. No nível da rua, ela lembra aqueles brinquedos feitos de cubos de madeira, do tipo “Pequeno Construtor”. O ambiente vai se transformando, os cubos vão se tornando escassos e a vegetação passa a dominar. A estrada, agora poeirenta, nos leva ao Sítio Joaninha, nome até simpático para a realidade que nos aguarda.

O Sítio é uma das áreas mais problemáticas que já conheci em SP. Os barracos se empilham em uma área antes ocupada por um imenso lixão, hoje desativado. Muitas das famílias se instalaram ali há décadas justamente por causa da renda que tiravam do lixo. Não há saneamento básico e, na área mais crítica, sequer água potável. A água é trazida a cada 15 dias por um caminhão-pipa. A eletricidade, que mantém as TVs sintonizadas nas novelas e programas populares, vem de uma teia de fios ligados a um único poste. O esgoto corre ao ar livre até encontrar os córregos que desaguam na Represa Billings, que abastece a cidade de São Paulo.

Se na minha cabeça tudo aquilo já era chocante, imagino o que deveriam pensar os amigos milionários.

João Vitor

Conhecemos Dona Paula e seu filho João Vitor, de 3 anos. Paula está grávida, a dias do parto. Tentou fazer a cirurgia de esterilização, mas a burocracia é tanta que não deu tempo. João Vitor se diverte com as câmeras dos curiosos. O barraco, calculamos depois, é menor do que o ônibus que nos trouxe até ali, e, segundo ela, quase voou na ventania da noite anterior.

Conhecemos Dona Cristina, que vive com o marido e 5 filhos em um barraco um pouco maior do que o de D. Paula. Aponto para uma das visitantes que somos 11 dentro da casa, não muito mais do que os 7 que lá vivem diariamente.

Conhecemos ainda outras pessoas, outros barracos, várias histórias daquelas que já vimos e ouvimos tanto a ponto de ignorá-las. No conforto do nosso sofá não há o cheiro, não há o choro; principalmente, não há o olhar do outro diante do nosso. É um olhar que, surpreendentemente, não questiona, não reclama; pelo contrário, oferece-nos um prato de feijão.

Alexsandro

Voltamos, brasileiros, “gringos”, gringo-brasileiros, pela mesma estrada sinuosa e poeirenta. A estrada vai limpando, o cenário muda, de madeira para concreto; as pessoas mudam, a cor da pele empalidece. Do Sítio Joaninha, chegamos então ao Hilton Morumbi.

Apesar dos problemas, no entanto, essa é uma história de otimismo. Em breve, o segundo dia do passeio.

P.S.: Gregory está em busca de ajuda para garantir condições mínimas para D. Paula acolher o bebê que está por vir, coisas simples como uma cobertura melhor e um chão de concreto para o barraco. Quem puder ajudar pode entrar em contato comigo ou diretamente com ele. O telefone lá é (11) 4049-4440.

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Comentários

  1. Mariana T diz:

    October 25th, 2007às 8:20 pm(#)

    Agora comentando em público: nada mais importante do que sua posição frente à comindade. É tudo uma questão de simulacro nessa vida. ks Mari

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