O Brasil, ao longe. Viagem a Rondônia.
August 16th, 2007 | Publicado em Jornalismo | 4 Comentários
Percorro com os dedos o mapa do Brasil para saber para onde estou indo. Longe. Logo após voltar dos Estados Unidos, viajei a Rondônia para observar o impacto da provável construção de duas usinas hidrelétricas no Rio Madeira. Mais do que isso, queria conhecer o Brasil, redescobri-lo.
Voando sobre a Amazônia durante a madrugada, não se distingue o céu da terra. Negro quase absoluto, pontilhado por solitários pontos de luz que poderiam ser de casas ou de estrelas. O que denuncia o chão, além da gravidade, é o reflexo da Lua, que persegue o avião acompanhando os rios e lagos que irrigam a floresta.
Diante de uma paisagem completamente nova para os meus olhos, tendo a chamá-la de “outro mundo”, para em seguida refletir se o mundo que é outro não seria o nosso, paulistano, metropolitano.
Rondônia, distante do eixo comercial e industrial do Brasil, é um lugar que vive de ciclos. Quando o mundo precisou da nossa borracha, uma leva de migrantes ocupou a região. Quando o assunto era ouro, outra leva. Cada uma delas teve começo e fim, deixando para trás apenas as marcas e a saudade dos ‘bons tempos.’
Quando um novo ciclo se aproxima, como anuncia a promessa das usinas, a população fica ouriçada, esperançosa. Ouvindo as pessoas, fica difícil culpar a maioria delas, que busca, como grande parte dos brasileiros, a chance de uma vida melhor.
Foi esse desejo que levou àquela distante região gente como Seu Zé Henriqueta, que chegou do sertão nordestino há mais de 40 anos, e é o mesmo desejo que os mantém por lá.
Há muita coisa que pode ser dita. Aqui vão algumas impressões.
Chuva de cinzas
Pela manhã, uma fina camada de poeira cinza empalidece a acaboclada pele do pescador que dorme ao relento. Flocos negros mancham o chão empoeirado. Uma névoa malcheirosa esconde o verde do horizonte e resseca as gargantas daqueles obrigados a respirá-la. A Amazônia chove em cinzas sobre Rondônia.
Viajando pela BR-364, de Porto Velho a Abunã, na divisa com a Bolívia, percebemos o clarão que a estrada abre na mata. No lugar de árvores, pastagens; no de animais selvagens, um monocromático mar de chifres. A floresta fica longe, ao fundo. As resistentes castanheiras tentam em vão quebrar a monotonia da paisagem.
Nos vilarejos da região, a ineficácia do Estado se reflete num ótimo negócio. Junte seus tratores, derrube uma área de floresta e venda seus novos lotes. Sem documentos? Ah, um dia o governo vem e legaliza. E assim Rondônia, agora com esperanças reacendidas pela boa nova das usinas, vai se transformando em um imenso loteamento.
À noite, voltando pela mesma estrada, fogo. Aos olhos estrangeiros, uma tragédia. Árvores queimando. A castanheira tenta resistir. Na visão dos moradores locais, apenas mais uma, causada provavelmente por um fumante incauto. Mentira, penso. Na manhã seguinte, névoa branca, poeira cinza, flocos negros e a garganta irritada.
Do Nilo ao Madeira
É provável que Seu Zé Henriqueta (foto) nunca tenha estudado a história do Egito. Mesmo assim, ele está mais próximo dos antigos egípcios do que imagina.
Todos os anos, o Rio Madeira tem uma fase de cheia e uma de seca. A diferença no nível da água chega a dezenas de metros. Quando as águas baixam, deixam fértil uma larga faixa de terra às suas margens. Os egípcios do Rio Nilo conheciam o fenômeno; os ribeirinhos do Madeira idem.
Zé Henriqueta planta, entre outros, batata, melancia, melão, milho e feijão, além do capim que alimenta suas cabras. Apenas o que sobrar é vendido. Além de tudo isso, o rio dá peixe, e como. A família toda foi criada ali, no sítio de nome sugestivo: Vista Alegre. Alguns metros abaixo, a cachoeira do Santo Antônio, futura sede da usina. Seu Zé Henriqueta ainda não sabe para onde vai.
Seu Rubinho não planta, mas acabou de construir um bar próximo ao rio. Dona Maria, mãe do Seu Pedro, passou a vida viajando até achar a Cachoeira do Teotônio, um lugar tão bonito que a fez ficar. Enquanto Pedro pesca, ela faz a sua colheita.
Como eles há muitos outros, e a história se repete toda vez que é invocado o dever de promover o crescimento da Nação. Não vou entrar aqui na politicagem do projeto – ainda não me considero apto a tanto. Enquanto Seu Zé Henriqueta está incerto quanto ao próprio futuro, depois de viver mais de 60 anos, outros Zés e Franciscos celebram o desenvolvimento. Arrisco-me a opinar que, tal como nos outros ciclos, as promessas são muitas. Em Rondônia, no entanto, a História não tem sido eficiente ao cumpri-las.
Clique na imagem abaixo para ver o slideshow, e confira mais fotos da viagem no meu Flickr!
Mais:
- Eco Balaio, blog da minha companheira de viagem, Carol Derivi;
- Rio Madeira Vivo, ONG que luta pela preservação do Rio Madeira;
- Kanindé - Associação de Defesa Etnoambiental;
- Coletivo Audiovisual Sapeca - encontramos esse pessoal fazendo um documentário sobre o tema;
- Pesquisa no Google News
- Novo: A Agência Brasil publicou um material multimídia interessante sobre o tema.










September 7th, 2007às 2:40 am(#)
gostei!
November 20th, 2007às 12:29 am(#)
Parabéns, belas palavras, moro em rondônia a 16 e a anos três anos me mudei para o interior de Rondônia e amo este estado e não pretendo nunca sair daqui..
ja visitei outros estados e quanto mais eu saiu e vejo os estados visinhos, mais vejo a únião e a dedicação que cada rondoniense sente um pelo outro…
admiro isso em Rondônia.
E se realmente prestou atençaõ em detalhes em sua viagem, vai concordar comigo.
Não sei que pretende com esse documentário mais acho que seria preciso alguns meses para você entender o povo daqui…
Nem uma critica sobre você. Mais apenas uma sugestão, você se engana quando retrata Rondônia
com um olhar de despreso, posso estar enganada, mais ao meu ver você precisa rever seus conceitos …
Se você quiser, posso lhe dar uma cartilha sobre grandes avanços que rondônia tem feito pelo Brasil…
Não quero usar com você palavras de difícil compreenção simplismente gostaria que entrasse em contato comigo para que possamos discutir idéias, e até quem sabe respostas…
atenciosamente: Keila Gomes
November 20th, 2007às 12:33 am(#)
email para esse tipos de contatos
Keila_dama@hotmail.com
August 12th, 2008às 11:42 am(#)
Não consegui encontrar o que mais preciso. Fotografias das cidades localizadas às margens da BR-364. Pode ajudar-me?