Brooklyn Celebra Dr King
January 20th, 2007 | Publicado em NYC

Comentário de um taxista negro (dado que fará sentido em breve) sobre a coincidência do meu aniversário com o de Martin Luther King, Jr.: “Você deve ser um homem decente, então”. O dia era 14 de janeiro, véspera da data em questão, ambos ouvíamos atentamente os comentários no rádio sobre as comemorações do dia seguinte, feriado nacional dedicado ao Dr. King e à luta pelos direitos civis. O carro me levava para casa, num bairro tradicionalmente “afro-americano”, como manda o inglês politicamente correto.
Não acredito em horóscopo, nem quero soar pretensioso, mas agradeci o comentário. Dentro de mim, pensava no peso daquelas palavras, na importância daquele homem que, obviamente não pela coincidência, escolhi como um guia (não gosto da palavra ídolo). Mas foi apenas depois de vir para os Estados Unidos que descobri o real significado dessa data, desse homem e da época em que ele viveu.
Um certo ônibus
Quando entro em um ônibus hoje, principalmente se estou perto de onde moro, minha memória volta a 1955, quando Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos, se recusou a dar o lugar a um passageiro branco e por esse motivo foi presa. O evento foi o estopim de um movimento que já se esboçava há alguns anos, e que confiava na liderança de um jovem pastor de nome King (Rei).
Olhando para o ônibus hoje é difícil imaginar que, naquela época, o negro não podia sequer sentar nos mesmos bancos, ou mesmo ir à mesma biblioteca onde iam os brancos. E que isso aconteceu não há 200 anos, quando ainda havia escravidão, mas agora há pouco, 50 anos atrás.
Em tempos de guerra, fica também difícil imaginar como um movimento que pregava e aplicava a teoria da não-violência conseguiu tamanhos resultados. Mas pessoalmente acredito que é exatamente nesse ponto que está o poder daquele grupo. Ao se afirmarem não-violentos, eles mantinham a integridade e a dignidade da causa, e deixavam sem argumentos os que tentassem acusá-los.
e sombra
Depois de muita luta e muito sangue, os Estados Unidos vivem hoje sob a luz daqueles dias, apesar das dificuldades que ainda persistem. Se a revolução de King e da sua organização, a NAACP, não foi ainda capaz de criar a almejada igualdade, ela criou um sentimento de identidade muito forte. Hoje há canais de TV, revistas, grifes de roupas, música, cinema e teatro, todos feitos por negros e direcionados para o público negro, ou “afro-americano”, como queira. Literalmente, o preto fez o branco dançar. Nada movimenta mais dinheiro hoje na indústria do entretenimento do que o rap.
Mas é claro que há o “apesar”. Tenho a impressão de que o racismo americano hoje se parece um pouco mais com o brasileiro, mais sutil e talvez até mais cruel. Considero o Brasil um país muito racista, que se esconde atrás do mito da miscigenação, da brasilidade, da antropofagia. O racismo brasileiro, e o americano de hoje, se manifestam nas entrelinhas das páginas policiais, da distribuição geográfica e nos indicadores sociais, que colocam o negro na periferia geográfica e econômica. Nada disso é novidade: o preto é mais pobre, tem as piores escolas, o pior sistema de saúde e os índices de violência no “ghetto” são comparativamente altos. E muito branco, no conforto do carro blindado, diz que não tem nada a ver com isso. Mas as comparações com o Brasil acabam aqui. Ainda é muito melhor ser pobre nos EUA do que no Brasil, não há dúvida.
Mesmo que muita coisa tenha mudado, nada disso quer dizer que o racismo à moda antiga tenha sumido - o país da liberdade de expressão permite por exemplo que a Ku-Klux-Klan continue na ativa, inclusive com ações não muito cristãs. E muito do sentimento de revolta do negro é hoje canalizado pelo rap, que em geral não tem letras muito agradáveis.
Muitos falam que o movimento não tem a mesma força de antes, e que o próprio negro acaba desonrando a herança de Martin Luther King. Os tempos são outros, com certeza, e não dá pra esperar que as ações sejam as mesmas. O racismo mudou de cara, e a reação a ele também. O que dificilmente mudará é o peso da influência desse pastor que um dia disse que tinha um sonho, e que dedicou a vida a esse sonho, e morreu por ele, um sonho que não é de preto, branco, azul ou vermelho, mas de todas as cores.
Mais:
- Discurso “I Have A Dream”, de Martin Luther King Jr. ;
- NAACP ;
- 21st Annual Brooklyn Tribute to MLK .







