Deus, o Diabo e 2007 
December 29th, 2006 | Publicado em NYC

Achei a carta acima numa rua qualquer da cidade. Não é o Às de Espadas (o próprio Saddam), o que faz sentido, já que esse já enforcado, mas o 5 de Paus, ou melhor, Barzan Ibrahim al-Tikriti. Meio-irmão do ex-ditador, ele foi chefe do serviço secreto iraquiano. Quanto ao jogo de cartas, essa foi uma estratégia usada pelo exército americano para que os soldados memorizassem as faces dos mais procurados. Não sei nem como medir tamanho sarcasmo...
Sobre a execução
Resolvi adiar o "Feliz 2007" não por duvidar da sua possibilidade, mas porque o passo a ser dado ficou maior. Pra coroar 2006, Saddam Hussein foi enforcado. Fiquei sabendo da notícia num saguão de aeroporto, enquanto esperava o vôo quase 2 horas atrasado (é, aqui também). Ansioso por mais informações, ao entrar no avião fui direto para os canais de notícias ver qual seria a reação.
E não deu outra. A apresentadora da MSNBC usava todas as letras para reforçar que o julgamento tinha sido justo, opinião compartilhada pelos comentaristas. Eu nem esperava algo diferente quando mudei para a FOX News. A empresa do Sr. Rupert Murdoch não tem a mais independente das reputações, apesar de insistir em dizer o contrário. Não pude checar a CNN na hora, mas pelo que vi depois, também não foi muito diferente. A conclusão foi tomada, aceita e não questionada, exceto por alguns gatos-pingados esquerdistas . O presidente Bush, que estava dormindo em seu rancho no Texas na hora da execução, disse que Saddam ganhou a justiça que os iraquianos não tiveram sob o seu regime. E agora, no país da informação, não se fala em outra coisa. Não vou questionar aqui a justiça ou não da sentença, eu que sou contra a pena de morte por princípio, mas alguém tinha alguma dúvida de que o resultado seria esse? Logo após a notícia da execução, continuei minha viagem acompanhando uma daquelas biografias que ficam na gaveta esperando o personagem virar presunto. Pronto, matamos o namorado do Diabo (segundo o desenho South Park) e o mundo é um lugar mais seguro a partir de hoje. A guerra no Iraque já matou mais norte-americanos do que o atentado de 11 de Setembro. Logo após a execução de Saddam, um atentado em Bagdá matou mais de 70 iraquianos. O Nobel de Economia Joseph Stiglitz estimou o custo da guerra, para os EUA, em 2 trilhões de dólares. Imaginem usar todo esse dinheiro para reduzir a desigualdade da África, por exemplo? O que me faz pensar que temos um passo maior ainda a ser dado para tentarmos um feliz 2007 não é se Saddam mereceu ou não ser executado. O que me entristece é a constatação de que não adianta desejar, gritar, espernear. Estamos todos, 6 bilhões de pessoas, à mercê de alguns poucos, que brincam com o mundo como se fosse um jogo de tabuleiro, e pior, que brincam de Deus em nome de Deus. Mas bola pra frente que só reclamar também não ajuda. Agora sim, deixa a pomba voar... feliz 2007!






