No Halloween, me vesti de jornalista de rock
November 1st, 2006 | Publicado em NYC
Na primeira semana de Novembro, logo após o Halloween, cobri o festival CMJ Marathon, aqui em NY. Acompanhe as minhas aventuras como “Jornalista de Rock por Um Dia”, ou melhor, cinco.

Dia 1
Terceiro free-lance internacional. 31 de outubro, Halloween, eu acordo e visto a fantasia. Jaqueta meio militar, camiseta e jeans pretos, tênis All-Star surrado. Câmera, gravador, caneta e bloquinho, tudo na mochila: virei jornalista de rock. Indie rock, pra ser mais exato. A vida não é tão fácil assim, então levo quase uma hora de metrô do Brooklyn ao Lincoln Center , que fica em frente ao Central Park, em Manhattan. Vou passar os próximos 5 dias cobrindo o CMJ Marathon , maior festival de música independente do mundo, segundo os organizadores, mas um dado que eu nem me arrisco a contestar: são mais de 1000 bandas e 50 casas de show diferentes.Dentro do trem, já confesso meu “amadorismoâ€: em vez de ouvir o novo som de alguma banda finlandesa de nome estranho, tenho um surto de saudade do Brasil e coloco O Rappa no iPod. O jornalista de rock viaja assim sob a cidade, na companhia de um Frankenstein, de uma e outra fada, alguns mortos-vivos, abóboras, Homem-Aranha etc.
A primeira coisa que notei ao chegar foi o contraste entre o lugar, o Lincoln Center, que é sede, por exemplo, do New York Ballet e da Orquestra Filarmônica, e as “atitudesâ€. Cabelos revoltados, música pesada, roupas largadas… tudo dissonante, pra usar um termo musical. Mas o lugar se justifica: o evento é tão grande que você pára pra pensar se isso tudo é mesmo “independenteâ€. Não tem jeito, aqui nos Estados Unidos, mesmo o indie acaba sendo mainstream.
Pausa pra pensar. Desde que vim para cá, tenho uma teoria: se você vive nesse paÃs, melhor abraçar a sua parte da culpa. Não há como ser socialista e aproveitar as benesses do capitalismo como se faz por aqui. É até patético xingar o “sistema†de dentro de um apartamento aquecido diariamente com óleo do Kuwait. Claro que não defendo a total resignação, mas reconhecer a própria responsabilidade já é um grande passo que poucos parecem interessados em tomar, vale lembrar.
Enquanto se falava sobre música e ativismo em uma sala, e em outra sobre os desafios da indie country music, o que quer que seja, quem tocava do lado de fora era a banda The Black Hollies , que tenho que confessar que até gostei. Enquanto ouvia, sentado num confortável sofá, checava o conteúdo da sacola de “presentes†que eu acabara de ganhar. Credencial de imprensa, bebida energética, abridor de CDs, de garrafas, papéis e mais papéis, revistas, CDs (Public Enemy , entre outros), DVDs, uma camisinha, porta-cigarros…
Não deu pra aproveitar muito o dia. A vida não é mesmo tão fácil assim, então tive que abandonar a fantasia e assumir o posto diário de bartender, o famoso “emprego-para-pagar-as-contasâ€. Planejava ainda fazer bom uso da credencial, e visitar alguns dos shows no fim da noite. Tinha The Rapture , por exemplo, mas no final, acabei nem indo a show algum. O trabalho chato levou mais tempo (e menos dinheiro) do que o esperado, e a única alternativa foi pegar o bonde de volta pra casa e torcer pelo dia seguinte, que obviamente fica pra próxima.
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Dia 2
Dia de perceber que as coisas não seriam tão fáceis como eu imaginava. Depois de passar horas mergulhado no som das 100 músicas que ganhei “de graça”, pra tentar entrar no clima, sigo para a maratona. Casas lotadas, filas e mais filas, e fico sabendo que minha credencial não vale tanto assim. O ponto de partida é o Lower East Side, região onde se encontram 90% dos clubes underground da cidade. Vou de um para outro sem muito sucesso. Depois, tento a cartada da noite, show do grupo sueco (não falei?) The Knife, uma das sensações do festival. Quem diz que eu entro? Solução: voltar pra casa e escolher as cartas para o dia seguinte.
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Dia 3
Dia de perceber que as coisas seriam realmente difÃceis. Mas também dia de um fato histórico: entrevistei (por 5 minutos) Tommy Ramone, baterista e último sobrevivente da formação original do Ramones. Conversamos brevemente sobre o fim do CBGB e o futuro do rock. Tommy e outros participaram de um bate-papo justamente sobre o fim do CBGB. Depois disso, poucas boas notÃcias. Descobri que realmente a credencial de imprensa não serve para nada. Esperei por uma hora em frente ao Bowery Ballroom, onde a banda brasileira CSS (confira matéria sobre eles) e a americana The Shins. Nenhuma esperança de entrar, voltei para o Lower East Side da noite anterior e estava pior ainda. Numa das festas mais “fraquinhas”, me disseram que só permitiriam a entrada de 75 “crachás”, que incluem jornalistas e, teoricamente, VIPs - pessoas que pagaram mais de $300 dólares para terem acesso “total” ao evento. Depois disso, todos pagam. Ou seja, pernas e mais pernas.E eu vejo alguns sites e me pergunto: como é que vocês entraram? Tem que ter muita vontade… veremos como eu me viro amanhã.
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Dia 4
Dia de compromissos pessoais e nada de roquenrol.
Dia 5
Finalmente um show decente! Acordei cedo e fui direto para o local do show escolhido da noite. Ok, nem tanto, mas eram 7h da noite quando cheguei ao local, e ainda não tinha ninguém. Finalmente o crachá serviu pra alguma coisa! O lugar se chama Hiro Ballroom, e é um clube estilo oriental, com uns dragões, aquelas luminárias de papel etc. De “completamente vazio” pra “absurdamente cheio”, foram umas 3 horas de espera. A primeira banda, que eu não consigo lembrar o nome, era um duo de voz e, digamos, percussão. O cara tocava bateria com placas de carro (do texas, pra ser mais exato, vide foto). Sonzinho engraçado pra um público minúsculo.
Em seguida, um tal de “Women And Children” (Mulheres E Crianças). Fico pensando se tem alguma relação com a famosa frase de navio naufragando: “Mulheres, idosos e crianças primeiro”, mas talvez eles não quiseram colocar o “idosos” no nome. E o som tem tudo a ver com o nome. Bem feminino e até infantil. Já dá pra imaginar a reação do público né?
Depois um pouco de punk rock, e um cara maluco com uns vÃdeos nonsense e música eletrônica. Esse foi vaiado até cansar, óbvio. O negócio ali era Roquenrol, e o público, agora ocupando cada centÃmetro quadrado do local, já ficava impaciente. Foi quando entrou a banda mais esperada, os britânicos do The Fall. Okay. Junte 1 judeu hasÃdico, dois “college boys” e uma menina-revoltada-com-roupa-de-brechó a um velho bêbado e roqueiro dos anos 70. Aà está a banda que agitou a noite. Claro que fiz uma pesquisa básica e descobri que o The Fall está na ativa há mais de 30 anos, e o único sobrevivente da formação original é o tal velho, Mark E. Smith, que poderia ser pai (e acho que até avô) dos outros membros. A banda está na trilha sonora do filme O Silêncio dos Inocentes, por exemplo.
Aà sim, rock! Público pulando até o final, e até o astronauta brasileiro arrisca uns pulinhos. Quando o show termina, as pessoas pedem mais, e esperam por quase 20 minutos até se darem conta de que tinha mesmo acabado. Hora de beber mais, ou voltar pra casa. Agora, só no ano que vem.
Confiram a matéria do Folhateen , reduzida pela metade devido aos contratempos (e à inexperiência do jornalista).









