Walker Evans, Carbono e Prata
September 6th, 2006 | Publicado em Uncategorized
Walker Evans, na sede do banco suíço UBS em Nova York. Além
de homenagear o artista, um dos maiores da história da fotografia, o
evento chama a atenção para um aspecto particular: as relações entre a
fotografia tradicional e o mundo digital.
Walker Evans nasceu em 1903, e começou a fotografar em 1927, depois de frustrado o sonho de ser escritor. Duas pessoas determinaram a direção do seu trabalho. Quando ele já rejeitava o primor artístico pregado por Alfred Steiglitz, descobriu o trabalho descompromissado do francês Eugène Atget. Evans não queria a formalidade artística, mas sim o contato com as pessoas. Era o que ele chamava de "documentário lírico".
Sua maior contribuição à fotografia nasceu de um trabalho à primeira vista burocrático: documentar os efeitos da Grande Depressão em famílias de fazendeiros para o governo americano. O propósito era justificar visualmente o programa de governo do presidente Roosevelt (New Deal). Assim, por dois anos (1935-36), Evans percorreu os mais escondidos recantos dos Estados Unidos, e o resultado foi muito além do mero registro. Ali ele definiu o seu estilo, e criou a base para essa nova fotografia.
É desse período que vêm as imagens expostas no UBS. Agora, por que tanto alarde sobre imagens já tantas vezes mostradas? Um outro objetivo se esconde nas entrelinhas (ou talvez nas próprias linhas). Todas as fotos expostas foram impressas a partir de arquivos digitais, com impressoras jato-de-tinta. O evento celebra então, mais do que a qualidade do trabalho de Evans, o avanço das tecnologias de impressão. Boa parte das fotos expostas são acompanhadas de suas respectivas impressões originais, para que os visitantes possam comparar e tirar suas próprias conclusões.
A título de explicação: a impressão tradicional, a partir do negativo, é feita por um processo químico que envolve a ativação de sais de prata sobre papel sensível à luz. Já a impressão jato-de-tinta, como o nome diz, é feita como uma pintura automática, em que pigmentos de carbono são sobrepostos ao papel. Daí o nome da exposição: CARBONO E PRATA.
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O alarde teve sua repercussão, como era de se esperar. Fotógrafos tradicionalistas desdenharam a qualidade das impressões, enquanto os "antenados" aplaudiram. No fundo, a briga é a mesma desde a invenção da roda. Qualquer inovação sempre tem seus defensores e seus críticos.
Um crítico do New York Times colocou em questão a objetividade das impressões, a relação entre o resultado final, como interpretado pelo impressor, e a intenção do artista, voltando a um dos mais batidos assuntos das aulas de História da Arte, o que provavelmente Evans repudiaria. Mas o jornalista tem o seu ponto. O fato é que na impressão digital foram "descobertos" novos detalhes, como na foto abaixo (passe o mouse por cima da imagem para entender).

Muitos fotógrafos de antigamente eram tão preciosistas com o seu trabalho que queimavam todos os negativos antes de morrerem, para que não fossem possíveis novas reproduções. Assim, mantinham total controle sobre a qualidade das cópias e garantiam que o seu preço só aumentaria. Em tempos de internet, a idéia soa mesmo ultrapassada, mas Evans não pensaria nisso nem na sua época. Sempre aberto a inovações, ele seria o primeiro a abraçar a idéia, desde que suas imagens seguissem sua jornada pelo mundo, tocando as pessoas que encontrassem pelo caminho. No fundo, passadas concordâncias e discordâncias, é esse o objetivo, não?
Leia mais:
+ Walker Evans, artigo na Wikipedia;
+ Let Us Now Praise Famous Men: retrato de três famílias do Sul dos Estados Unidos na época da Grande Depressão.
+ And Their Children After Them: na década de 80, uma repórter e um fotógrafo refazem a trilha de Evans e Agee, em busca das famílias retratadas.
Dica:
Se você estiver em Nova York, a exposição ficará em cartaz até 17 de Novembro, na sede do UBS, que fica no 1285 6th Avenue, entre 51st e 52nd Streets, de segunda a sexta, das 8h às 18h. De graça.







