NA RUA
por paulo fehlauer


    Cansei de Ser Sexy, 24h em NY Twit-it!

    August 1st, 2006  |  Publicado em NYC

    Lovefoxxx

    Dia 20 de Julho (2006) acompanhei a banda Cansei de Ser Sexy por Nova York, meu segundo freela internacional na vida e na mesma semana. A matéria foi publicada no caderno Folhateen, do jornal Folha de S. Paulo do dia 31 de julho.

    Foi um passeio legal, que durou várias horas, e me levou a lugares ainda desconhecidos dessa cidade. Passei quase o dia inteiro com a banda, que tinha uma agenda cansativa, digna de rockstars. Depois de ver o resultado, deu até vontade de continuar na carreira de fotógrafo pop. Não acho que seja a minha, como objetivo de vida, mas é uma ótima experiência. A matéria e algumas fotos seguem nas páginas seguintes.

    Era uma vez na América

    Cansei de Ser Sexy, a banda que virou sensação no Brasil graças à internet, se internacionaliza

    CSS em NY

    OS PAULISTANOS do Cansei de Ser Sexy têm se beliscado para acreditar no que estão vivendo: depois de três anos no underground e crescendo em popularidade na internet, a banda está em plena turnê por cerca de 30 cidades dos EUA e Canadá. Hoje, por exemplo, eles tocam em Minneapolis. Em setembro, vão para Reino Unido, Holanda e Bélgica. Voltam para os EUA em outubro e para a Europa em novembro. Com o nome abreviado para CSS, para facilitar a leitura pelos novos fãs estrangeiros, o grupo fez um show em Nova York no dia 20, e o Folhateen ficou na cola das garotas (e um garoto) por um dia inteiro.

    CSS em NY

    A turnê foi organizada para divulgar o álbum americano do CSS, recém-lançado pela gravadora Sub Pop (que revelou o Nirvana), de Seattle. Com o nome de "CSS", reúne 11 canções dos dois discos lançados pela Trama no Brasil: o EP "CSS Suxxx", com sete músicas, e o CD "Cansei de Ser Sexy", com catorze, ambos de 2006.

    Bonde do Rolê
    CSS & Bonde
    A turnê acontece em parceria com Diplo e o divertido Bonde do Rolê. Diplo é um DJ e produtor americano metido com funk carioca. Por meio de sua gravadora, a Mad Decent, ele está lançando nos EUA um EP do Bonde do Rolê chamado "Melô do Tabaco" . Ainda sem nenhum álbum lançado aqui no Brasil, o Bonde é um trio curitibano de funk carioca indie. Os shows americanos e canadenses geralmente são abertos pelo Bonde e fechados pelo DJ Diplo, com o Cansei de Ser Sexy ensanduichado no meio. + Publicado no caderno Folhateen da Folha de S. Paulo, em 31 de julho de 2006.

    Cansei de Ser Sexy em NY Repórter cola na banda e relata um dia dos brasileiros que estão bombando lá fora

    Cansei de Ser Sexy

    TUDO PROGRAMADO para o show de quarta-feira, 19 de julho. Vai ser no Avalon, em Manhattan. De repente, a má notícia: apresentação cancelada. As cinco garotas e o garoto do Cansei de Ser Sexy não sabem o porquê, mas o clube é bem grande, bem maior que a média dos lugares em que eles têm tocado na turnê americana e canadense. Então, a explicação que fica é que a bilheteria não foi boa. Reportagem adiada para amanhã...

    Ao meio-dia, o repórter chega ao Chelsea Hotel, um tradicional reduto de rockstars, de decadentes e de rockstars decadentes também, local onde Sid Vicious matou Nancy Spungen a facadas no quarto 100 em outubro de 1978. Em outro andar, no quarto 507, o dia do Cansei de Ser Sexy já começou faz tempo. Os seis estão sentados na cama, entretidos em uma conversa animada com uma jornalista do diário britânico "The Guardian". Enquanto devoram um pacote de blueberries, comentam o significado de suas letras e falam da mistura racial do Brasil e da vocalista Lovefoxxx, "meia japonesa", segundo ela. "As pessoas levam as coisas muito a sério. Tem gente que vem e diz: "Mas vocês nem são sexies!'", comenta a guitarrista Carolina Parra ao citar a letra da música "Art Bitch" ("Minha arte é chamada egocentric soft porn/ Ou talvez seja apenas narcisismo"). É talvez para comprovar essa tese que a vocalista Lovefoxxx conta suas peripécias vestindo um pijama colorido que ela só abandonará pouco antes do show.

    CSS

    Antes de Nova York, o Cansei de Ser Sexy já tinha passado por algumas cidades do norte dos EUA e também pelo Canadá, quase sempre com ingressos esgotados. Sobre o público que os acompanha, o baterista e único homem da banda, Adriano Cintra, diz que "a maioria é sempre americana, mas é impressionante como tem brasileiro em todo lugar".

    Depois de uma rápida pausa para um hot dog nada típico, em um super-higiênico restaurante em frente ao hotel, o CSS segue para a segunda parte da jornada britânica: uma sessão de fotos para o mesmo "The Guardian". Quando questionados sobre o assédio da mídia inglesa, que já rendeu destaques nos jornais "The Observer" e na revista "New Musical Express", a comparação é "despretensiosa": "Quando a gente chegar lá, vai ser quase como os Beatles", brinca a outra guitarrista, Luiza Sá.

    Pastel punk

    Quando tudo parecia correr dentro do cronograma, todos os taxistas da cidade decidiram não trabalhar. São 17h e ninguém quer ir ao Brooklyn por causa do trânsito. Depois de quase uma hora de acenos e de ser expulso de um táxi, o CSS enfim chega ao clube.

    CSS em NY
    O Warsaw, local do show, é ao mesmo tempo um clube, casa de shows, restaurante e, inusitadamente, um centro de cultura polonesa onde, segundo a propaganda, "o punk encontra o pierogi". Só mais tarde se descobre que pierogi é um prato típico polonês, um pastelzinho cozido, recheado com batata e acompanhado por repolho e uma salsicha polonesa, servido ali por 5 dólares. O cenário é um pouco decadente e, enquanto velhinhos poloneses tomam a sua cerveja polonesa de um lado, guitarras e bateria fazem as paredes tremerem do outro. E ainda estamos na passagem de som, que dura cerca de meia hora e dá uma prévia da noite. Quem abre a balada, às 21h, com o público ainda um pouco esparso, é o Bonde do Rolê, que bota pilha numa platéia que não entende bulhufas das letras, mas que saca na hora as coreografias explícitas da vocalista Marina Ribatski. O Bonde tem um pouco mais de estrada internacional: vem de uma turnê de seis shows na Europa e, como o CSS, foi citado em diversas publicações estrangeiras. Quando, às 22h15, o CSS entra no palco, o salão já está quase cheio e o público está animado. Há poucos brasileiros na platéia, como a banda havia antecipado. Eles detonam com "Alcohol" e "Let's Make Love and Listen Death from Above". O público canta alguns refrãos junto e pede bis. O show dura cerca de uma hora e tem pelo menos dez moshes da vocalista Lovefoxxx. Ela adora se jogar no público e se trocar também: usa cinco roupas diferentes. Depois do show, fotos, abraços, autógrafos e comentários satisfeitos: "Foi a melhor apresentação que a gente já fez aqui", comemora Lovefoxxx.
    Lovefoxxx
    Uma boa parte do público nem lembra do DJ que encerra a noite; prefere celebrar com a banda. Feliz o público, feliz a banda, felizes os empresários, brasileiros e americanos. Pelo jeito a aposta foi acertada. No dia seguinte, o CSS volta para o ônibus e segue em direção ao sul do país. Serão mais 20 shows, em 20 cidades diferentes, antes de embarcar para a Europa. Depois eles voltam para os EUA (vão tocar com os ingleses do Ladytron) e, na virada do ano, ainda tocam em Sydney, na Austrália.

    Cansados? Um pouco, mas aproveitando cada minuto.


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