NA RUA
por paulo fehlauer


    Correntes

    November 29th, 2005  |  Publicado em Uncategorized

    Aquele barulho me soou estranho. Eu andava olhando para a frente, como sempre me ensinaram, mas naquele instante meus olhos circulavam distraidos. Ouvi a conversa, em ingles, mas nao dediquei…

    Aquele barulho me soou estranho. Eu andava olhando para a frente, como sempre me ensinaram, mas naquele instante meus olhos circulavam distraidos. Ouvi a conversa, em ingles, mas nao dediquei atencao suficiente para compreender. O sotaque do gueto denunciou a cor da pele. Mas o que me fez voltar os olhos para tras quando os tres - um homem e duas mulheres - passaram foi outro som. Ouvi correntes se arrastando sobre o chao. Lembrei ter visto de relance as maos das duas mulheres. Tinha achado estranho elas nao as moverem em sincronia com as pernas, como todos fazemos. Tambem estranhei os seus passos curtos, ainda mais curtos se comparados aos do homem, que tinha em uma das maos um cigarro aceso e cujo outro braco acompanhava suas pernas como um pendulo. Voltei a olhar para tras e pude ver a cena completa enquanto as duas mulheres entravam por uma porta. Ele, o policial, vestia uniforme cinza, cor adequada ao dia frio e nublado. As duas mulheres, prisioneiras, vestiam um macacao verde, nao tao condizente com o clima. O predio era de tijolos vermelhos e todas as folhas amarelas das arvores em frente estavam no chao. Pensei se conseguiria pegar minha camera a tempo. Olhei para o alto e percebi que uma outra camera me faria cumplice. As mulheres entraram e eu segui meu caminho. Quis perguntar a elas o que as tinha levado para la; se eram realmente culpadas; e por que tinham feito aquilo. Mas ja era tarde, a porta ja tinha se fechado. E, de qualquer maneira, essas perguntas nao seriam permitidas assim tao facilmente. E eu nem sei mesmo se teria coragem de faze-las. A propria cena ja carrega um julgamento muito forte. Voltei a olhar para a frente, como sempre me ensinaram, mas meus olhos agora insistiam em fitar minhas pernas. A cada passo que eu dava, ouvia o barulho das correntes…


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