NA RUA
por paulo fehlauer


    Domingo no parque (ou uma história cheia de clichês)

    April 3rd, 2005  |  Publicado em Uncategorized

    ibirapuera - são paulo - 2004 - negativo cor - paulo fehlauer

    Hoje fui correr no Parque do…

    ibirapuera - são paulo - 2004 - negativo cor - paulo fehlauer

    Hoje fui correr no Parque do Ibirapuera… Não, esse blog não virou um registro dos meus programas de índio diários. Mas, levando em consideração a relação intrínseca entre o exercício do olhar que faço aqui e o meu cotidiano… hoje fui correr no Parque do Ibirapuera e, enquanto dava a volta no parque (alguém sabe quantos km tem essa trilha?), observava toda a paleta de cores e estilos presente. A conclusão de toda essa observação foi: o Ibirapuera é o suspiro de São Paulo. Sabe aquele respirar fundo? Então. Ok, chavão, né? Dêem-me a chance de desenvolver.

    Já vem desde a Grécia Antiga a idéia da praça como espaço de reunião. A ágora, na época, tinha um papel ainda mais nobre: espaço de decisão pública. Voltando ao nosso tempo - no qual, é bom lembrar, as decisões se dão em lugares bem mais obscuros. Muita gente já estudou e pesquisou a função social da praça, do parque. Cheguei até a googlear para saber se o Ibira já foi alvo de estudos nessa área (não achei). A questão é: São Paulo respira no Ibirapuera (por favor, ignore o quesito qualidade do ar).

    Momento 1: uma família de 6 pessoas - pai, mãe e escadinha de filhos - abre um parênteses de um dia na semana para fazer um piquenique no parque. Levemos em consideração o fato de essa família provavelmente ter vindo de muito longe num corcel velho ou até mesmo todos dentro de um ônibus. E desconsideremos o fato de que seria obrigação do Estado dar condições de lazer mais próximas às casas de tais pessoas. Ali o parênteses está aberto e nada mais importa até a segunda-feira.

    Momento 2: um casal gay escolhe uma das milhares de árvores (no caso, a mais escondida possível) para um parênteses íntimo que a sociedade reprime no dia-a-dia. Auto-explicativo.

    Momento 3: um casal de velhinhos prolonga o parênteses da semana inteira, agora com uma paisagem muito mais interessante que a televisão (no caso, o chafariz).

    Os momentos são infinitos, a maioria clichês e cartões postais (e incluem até um cara com uma cobra no pescoço!), mas o ponto está na palavra que usei para interligá-los: parênteses - que leva a suspiro e a respirar fundo, que é tudo o que os paulistanos menos fazem durante a semana. Já comentei em tempos longínquos o papel da praia no Rio de Janeiro, por exemplo. E, cariocas, nós não temos mesmo o que falar: praia é praia e o Ibirapuera é praia de paulista mesmo, fazer o quê?

    Eis que chegamos à nossa conclusão didática e óbvia, como avisado: São Paulo seria um caos ainda maior não fosse o Ibirapuera (se é que isso é possível). Nenhuma novidade, né? Mas aqui o problema não é meu, é do homem pós-moderno, que, na sua aldeia global, vive sob uma avalanche de informações que o angustia mais e mais a cada dia. Nesse caso, melhor abrir um parênteses e respirar.

    + Parque do Ibirapuera;
    + Parques de São Paulo;
    + Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo (que tal reclamar da falta de opções de lazer na sua região?);

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