NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Em Dezembro, Rio Branco cheira a chuva

    December 24th, 2008  |  Publicado em viagem


    Não segui com as ‘acreanas’, não fiz o diário que havia prometido. Pois bem. Obrigo-me, portanto, a fazer um breve resumo sensorial (e desconexo) dos 7 dias que passei em plagas amazônicas.

    Como diz o título, em dezembro, Rio Branco, a capital do Acre, cheira a chuva. Choveu quase todos os dias da minha estada, mesmo que por apenas alguns minutos. O cheiro de chuva se mistura ao bafo quente do Equador, e aos cheiros diversos das diversas especialidades acreanas.

    O tacacá, de que já haviam me falado muito, só fui provar nos últimos dias. Já havia experimentado o sabor estranho e refrescante do jambu – um dos ingredientes do prato – alguns dias antes, quando conheci o refúgio do jornalista e blogueiro Altino Machado, voz polêmica e necessária em uma região dominada por uma imprensa pouco crítica. Na casa do Altino, o jambu fora servido com talharim.

    Senti o leve amortecer da língua ao morder a flor do jambu. Fiquei também levemente amortecido ao tragar – eu, não fumante – um cigarro de fumo acreano, enrolado em uma espécie de “galho”.


    Conversamos, eu e Altino, sobre as possibilidades e dificuldades da blogosfera, o estado das coisas no Acre, e, claro, Chico Mendes. Estávamos na “Semana Chico Mendes”, que inclui na programação uma homenagem a personalidades relacionadas à luta ambiental. Altino criticou muito a lista. Eu, olhando do “centro”, recuso-me a avaliá-la.

    Analisando superficialmente a imagem tão presente do seringueiro, tive a impressão de que o seu nome, 20 anos após a sua morte, está para o Acre quase como a de Che está para Cuba. Chico se tornou um ídolo cujos ideais foram diluídos em propaganda. Só quem se arrisca a falar mal dele hoje é Darly Alves da Silva, o fazendeiro acusado do seu assassinato.

    Fui ao Acre, como já disse em post anterior, para dar uma palestra e uma oficina, ambas sobre jornalismo multimídia, a convite do Sinjac, o sindicato que representa os jornalistas do Acre.

    É difícil comparar um mercado fervilhante (mas, bom lembrar, dominado por grandes empresas), como o de São Paulo, ao de uma cidade de 300 mil habitantes, dependente em grande parte de cargos e incentivos públicos. É inevitável que essa dependência apareça também na imprensa. As questões, possibilidades e dificuldades são outras. Por isso, quis ressaltar a importância da web e da sua “alocalidade”. Melhor exemplo disso foi o alcance que tiveram as imagens dos índios isolados feitas pelo fotógrafo Gleílson Miranda, que tive o prazer de conhecer.

    Gleílson não ficou rico, sequer ganhou o (controverso) prêmio Chalub Leite, mas suas imagens percorreram o mundo, e contaram uma história que o mundo precisava ver e ouvir.

    Resumindo, porque já me estendo muito, fiquei com muita vontade de voltar ao Acre com mais tempo, para conhecer melhor o estado, principalmente o seu inteiror – Xapuri, Cruzeiro do Sul, entre outras. A fama de hospitalidade se confirmou, e é mais um motivo para voltar. Fiquei também muito interessado pela figura de Chico Mendes, seja a pessoa real ou o mito. Ah, e voltarei também em busca de mais baixaria!

    Veja também o relato visual no meu Flickr.

    P.S.: Em breve, publico aqui a apresentação que usei na palestra e o material que produzimos na oficina.

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