Sobre jornalismo, publicidade, cerveja e Gregor Samsa
August 1st, 2008 | Publicado em Comentário | 8 Comentários
Lembro-me dos dias em que, recém-chegado à Escola de Comunicações e Artes da USP, discutia com os colegas do prédio vizinho (Publicidade, RP e Turismo) sobre as onto e deontologias de nossas respectivas carreiras. Diante das minhas críticas à atividade publicitária, respondiam-me alguns futuros publicitários que o jornalismo seria ainda mais vil, por fingir-se verdadeiro. Na mesma época, indo e voltando à ECA quase que diariamente pela Praça do Relógio, martelava-me a célebre frase de Fred Zero Quatro pichada em uma parede: “Jornalistas mortos não mentem”.
Pois bem. Vejam a capa do caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo de ontem (clique na imagem para abrir em tamanho maior). À primeira vista, estranha, fora dos padrões. Só não comecei a ler a matéria porque meus olhos chegaram antes ao “Informe Publicitário” escrito em letras pequenas sobre o título. Só então foi que encontrei a também pequena menção publicitária: “É melhor olhar com cuidado onde apóia o copo de Serramalte”.
Voltei aos primeiros dias de faculdade porque discutíamos justamente a confusão e as promiscuidades entre as diversas vertentes da comunicação. Da Serramalte, digo, AmBev, digo, InBev-Anheuser Busch, e dos seus publicitários, não espero nada, a lógica corporativa é essa, e só pode piorar. Aproprie-se da identidade alheia e transforme-a em produto. Aliás, cerveja e cigarro são dois temas que fazem mesmo os “revolucionários” terem vistas grossas.
Conhecendo a Folha por dentro, também não espero muito – entre o departamento Editorial e o Comercial, o pêndulo sempre vai pender para o segundo. O próprio ombudsman do jornal, jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, criticou o anúncio em seu comentário diário:
O tema cultural do texto publicitário (que anuncia cerveja), a utilização de crédito quase idêntico ao que a Folha usa (da reportagem local), o logotipo do suplemento encimando o material publicitário como se este fosse uma reportagem, tudo é muito estranho, muito atemorizante.
Abro então o jornal para ver a capa real (abaixo).
Onde está o conteúdo mesmo?
Como disse, não espero hoje muito mais da Folha do que da AmBev, o que, no caso, é um problema. Permitir um anúncio pseudo-jornalístico ocupando a primeira página de um dos cadernos mais nobres do jornal é, no mínimo, abrir mão da própria independência, da própria integridade. Imagine sair na rua com o rosto escondido em uma caixa de Sucrilhos. Como apontou Naomi Klein em seu livro Sem Logo (leitura recomendada), “aos poucos, as marcas vão nos roubando a identidade“.
O curioso é que a pseudo-matéria trata da disponibilização gratuita de livros na web, sem mencionar sequer uma vez a cerveja. E ainda consegue colocar Gregor Samsa, metamorfoseado em inseto, em O Processo. Talvez seja subliminar, quem sabe?
Complicado.
A conclusão a que chego é que precisamos, urgentemente, de um novo jornalismo. Mas, enquanto não chegamos lá, vou abrindo Serramaltes em agradecimento pelo meu salário.









