NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Na Vitrine, Rolex Com Biquini

    October 16th, 2007  |  Publicado em Comentário  |  7 Comentários

    Em vez de “Basta!”, ou “Cansei!”, o movimento palavra-de-ordem do momento deveria ser “Acorda!”. Acorda, classe média, acorda, elite! Tão triste e revoltada por perder um Rolex comprado em 8 prestações. Nem terminei de pagar e neguinho já tomou do meu braço. Por que ele não fica lá no projeto social que a minha mãe contribui todo mês?

    Não, no Brasil você não tem direito moral de desfilar livremente com seu Rolex, ou sua Louis Vuitton. Biquini com relógio (desculpem, só para assinantes da Folha) não é chique, é brega, ainda mais por aqui. E sim, a culpa pela violência que te aflige é sua, mesmo que parcialmente. Pô, você não comprou o Rolex pra causar inveja nos amigos? Causou também no marginal, só que ele não pode comprar, então ele vai lá e te devolve a inveja. Feitiço contra o feiticeiro.

    E não, não acho que o cara está certo em roubar, mas nem você está certo de ostentar, pelo menos não moralmente.

    Tipo assim, sinceramente, do fundo da sua inteligência, não lhe passa pela cabeça que esse relógio, que funciona tão bem quanto o Citizen de 100 reais (pra não mencionar os piratas de 10 pilas), alimentaria uma família por quase um ano? Chamem de demagogia, mas é verdade! Ou você até pensa, mas ai, o relógio é tão lindo, e é última moda em Paris né…

    O que eu luto para entender é por quê você continua no Brasil? Sério. Se esse país não oferece o conforto e a segurança que você quer, por que não vai embora, larga de vez esse lugar de preto e pobre. Ah, mas lá fora você não passaria de um reles brasileiro, subdesenvolvido, wannabe (ai, eu faltei essa aula de inglês, alguém me ajuda?). E você sequer poderia ter empregada para pagar mal, né? Imagina, ter que lavar a louça? Afff… Pra piorar, nem sambar você sabe.

    Mais do que o ladrão, mais do que o traficante, é essa pseudo-elite cega que envergonha esse país, disfarçando o seu Brasil de Europa em suaves prestações. Nem dinheiro para comprar à vista você tem. Você envergonha até a elite de verdade.

    Se o Brasil não vai pra frente, não é porque o pobre não trabalha, mas porque a elite não entende o seu lugar (sem falar na corrupção). O problema não está em ter dinheiro, mas em achar que o dinheiro é medida para qualquer coisa; em achar que, por ter dinheiro, você teria mais direitos do que o pobre. Pobre é roubado todos os dias e não tem nem chance de reclamar.

    E não importa se seu trabalho é honesto ou não, se paga imposto ou não. Se você tem muito é porque outros têm pouco, é a lógica do “sistema” que, infelizmente, está do seu lado. Problema maior é a cegueira, mas esta parece não ter remédio.

    Vai, continua sonhando, que logo logo malandro te acorda, e não vai ser com musiquinha.

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