NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Esperando Paulo Autran

    October 12th, 2007  |  Publicado em Uncategorized  |  5 Comentários

    Godot

     

    - E nós?
    - Como?
    - Perguntei: e nós?
    - Não percebo.
    - Qual é o nosso papel em tudo isso?
    - O nosso papel?
    (Samuel Beckett, Esperando Godot)

     

    Tudo começou com uma notícia. O Ator teria morrido. No caminho, a correção: na verdade, ele ainda está para morrer. Tarde. A leva de urubus já voa velozmente em direção ao hospital. É um por minuto.

    O farfalhar transforma estado grave em gravíssimo, diz-que-diz que vai morrer. “Já morreu?”, pergunta um retardatário. “Não, ainda não”. “Ufa!” Hoje o dia vai longe. E eu nem almocei ainda.

    Para ocupar o silêncio, histórias. “Quando o Papa estava para morrer, foi a mesma coisa. Alguém anunciou antes da hora, aí teve um que disse ao vivo ‘Lamentamos informar que o Papa não morreu’”. Gargalhadas…

    Pardal pergunta ao urubu: “Por que a bagunça?”, e recebe polida resposta: “O Ator está doente”. No fundo, urubu sabe que o mais adequado seria “Estamos todos aqui aguardando Dona Morte”.

    Que finalmente chega, o que de forma alguma alivia as aves de rapina. O trabalho, afinal, só está começando.

     


    - Vamo-nos embora daqui.
    - Não podemos.
    - Por que?
    - Estamos à espera de Godot.
    - Ah, é verdade…
    (idem)

     

    P.S.: Eis minha sincera e testemunhal, politicamente incorreta homenagem ao ator Paulo Autran, um xará que apenas sonhei ver nos palcos. Infelizmente, vai continuar na lista de não-realizados. Para quem não entendeu muito bem o texto, leia aqui e aqui. Mais fotos no meu Flickr (clique na foto abaixo).

    Waiting for Paulo Autran

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