Farofa à Tio Sam (um dia em Coney Island)
June 27th, 2007 | Publicado em NYC | 4 Comentários
Sobre a toalha estendida na areia por uma família porto-riquenha, espalham-se a cerveja holandesa, a comida típica, o rádio provavelmente chinês e as bandeiras dos Estados Unidos e Porto Rico. Alguns metros adiante, um grupo de americanos discute os movimentos recém aprendidos da capoeira. Digo que sou do Brasil mas que meu ‘lance’ é outro.
Uma semana depois, no mesmo local, calor infernal, sereias na passarela. É a famosa (pelo menos aqui) Mermaid Parade (ou Desfile das Sereias). Todo ano, no final de junho, a parada atrai milhares de pessoas. Dizem que é uma homenagem ao antigo carnaval da região, mas ninguém sabe explicar o porquê das sereias e da maquiagem. É uma daquelas coisas que simplesmente acontecem, ano após ano.
Coney Island é provavelmente a praia mais fotografada (experimente buscar “Coney Island” no site da Magnum) dos Estados Unidos, não exatamente pela sua beleza natural, mas pelo seu caráter, digamos, único. Parques de diversões quase-abandonados, como o Astroland, shows ‘exóticos’ como aqueles de 50, 100 anos atrás (pense Mulher-Barbada e similares), uma famosa roda-gigante, e a primeira loja de hot-dogs do país – só não entendo o que faz mais de mil pessoas esperarem na fila por um cachorro-quente, mas nessas horas tenho que lembrar que sou turista, o que também não faz muita diferença, pensando bem.
Coney Island também é o paraíso da farofa. Enquanto a burguesia foge de helicóptero para o Hamptons, a populaça mete guarda-sol, cestinha e toalha debaixo do braço e lota o metrô. Das 6 da manhã do sábado às 10 da noite do domingo são 40 horas de rush.
Mas Coney Island está ameaçada. O berço do hot-dog, paraíso dos farofeiros, dos porto-riquenhos, dominicanos, mexicanos, o lar das sereias, o lugar mais americano já tomado pelos imigrantes, pode ser demolido em alguns meses. Os leões famintos do mercado imobiliário da cidade estão de olho há tempos, e já compraram boa parte dos terrenos da região. Muitos dos comerciantes já receberam suas ordens de despejo, e a briga promete.
Não que a plebe tenha muita chance. O que é uma lágrima saudosista diante dos bilhões de dólares que serão investidos? É difícil tomar uma posição. Querem construir um imenso complexo residencial e de entretenimento, com parques de diversões de última geração e cassinos, uma mistura de Disney World e Las Vegas. Uns cantam odes ao progresso, outros choram o fim da magia do lugar. Disney é legal, mas custa dinheiro. Quanto maior o espaço privado, menos espaço o público tem.
Os burgueses que tomem cuidado. Afinal, a viagem dali pro Hamptons não leva tanto tempo assim. Quando uma sereia barbada ouvindo reggaeton invadir a sua praia, não digam que não avisei. (E viva o clichê e a liberdade de expressão!)
Clique na foto abaixo para ver um slideshow com fotos de minhas duas visitas recentes a Coney Island.








