NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Um Campo de Refugiados sem Refugiados

    October 12th, 2006  |  Publicado em NYC

    MSFO sol, o gramado verde e o clima de paz e tranquilidade denunciam: isso
    não parece ser de verdade. Mas a intenção é louvável: a organização
    Médicos Sem Fronteiras (MSF) organiza anualmente a exposição Um Campo de
    Refugiados no Coração da Cidade, que espalha réplicas dos seus
    tradicionais locais de trabalho por áreas bem menos conflituosas, como o Central Park, em Nova York. A intenção é dar uma idéia dos desafios de se viver sob a condição de “despatriado”, além de chamar a atenção para os efeitos dos conflitos em pessoas inocentes.

    msf1O sol, o gramado verde e o clima de paz e tranquilidade denunciam: isso
    não parece ser de verdade. Mas a intenção é louvável: a organização
    Médicos Sem Fronteiras
    (MSF) organiza anualmente a exposição Um Campo de
    Refugiados no Coração da Cidade, que espalha réplicas dos seus
    tradicionais locais de trabalho por áreas bem menos conflituosas, como
    o Central Park, em Nova York. A intenção é dar uma idéia dos desafios
    de se viver sob a condição de “despatriado”, além de chamar a atenção
    para os efeitos dos conflitos em pessoas inocentes.

    Segundo a MSF, o mundo tem hoje cerca de 12 milhões de refugiados e pessoas em busca de asilo, e mais 21 milhões de pessoas exiladas em seus próprios países. Só em 2005, as guerras fizeram esse total aumentar em 2 milhões de pessoas. A maioria dos países-abrigo são tão ou mais pobres que os países de onde vêm os refugiados.

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    INÍCIO


    Como me explicou o coordenador do projeto em Nova York, Michael Duman, um campo de refugiados geralmente nasce de forma espontânea. Um conflito costuma gerar levas de migrantes em busca de abrigo. Na situação em que estão, resta apoiarem-se uns aos outros. No curso da caminhada, ao encontrarem um local aparentemente seguro, eles tendem a se estabelecer. As entidades aparecem em seguida.

    É claro que o visitante da exposição não espera encontrar ali a realidade de um acampamento, mas, na medida do possível, os objetivos são alcançados. A primeira parada é em frente a algumas réplicas de minas terrestres, para lembrar aos visitantes mais um item da imensa lista de riscos que correm os refugiados. As minas matam e ferem cerca de 1500 pessoas por mês no mundo todo, e estima-se que hajam 45 milhões delas enterradas em mais de 80 países. Quem nos apresenta o tamanho dos desafios e os sucessos da organização é o nosso guia George Holloway, um ex-operador financeiro em Wall Street que trocou a carreira pela causa.

    A cada instalação, descobrimos que as coisas são muito mais difíceis do que se pensa. Uma das barracas de abrigo nos parece confortável até o momento em que o guia explica que ali devem dormir até 15 pessoas. Ele também explica que a estrutura ali está bem mais conservada do que as barracas reais, usadas e reusadas às vezes por anos e anos. A MSF raramente oferece abrigo propriamente dito. Como explica Michael Duman, “o objetivo da MSF é cuidar da saúde dos refugiados. Em um campo, geralmente há diversas organizações, cada uma com uma tarefa específica”.

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    NECESSIDADES BÁSICAS

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    Água e comida são duas preocupações constantes dos voluntários, pelas razões óbvias: ambos garantem a sobrevivência das vítimas e permitem assim o tratamento. Geralmente escassa nos locais em que os campos são construídos, e muitas vezes contaminada, a água é sempre um dos maiores desafios. Engenheiros e habitantes locais são contratados para fornecer possíveis soluções – construir poços ou purificar a água de lagos ou rios, por exemplo. Somos apresentados em seguida aos pesados galões geralmente carregados por mulheres e crianças por milhas e milhas. O dado estatístico revelado em seguida é assustador: enquanto cada refugiado tem direito a 2 galões diários para todas as suas necessidades (banho, cozinha e limpeza), nos Estados Unidos uma pessoa chega a gastar 100 dos mesmos galões em um único dia.

    Quanto à comida, a MSF tem lutado para convencer governos e empresas a baratear o custo do BP-5 (foto), uma barra composta basicamente por cereais e proteínas, que, apesar de quase sem sabor algum, cumpre bem o seu papel de salvar vidas. Além do BP-5, a MSF costuma distribuir alimentos locais, para que os próprios refugiados cozinhem. No caso das crianças, todas têm seu peso e altura medidos, e são classificadas de acordo com o estado de desnutrição em que se encontram.

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    MÉDICOS, ENFIM

    msf1msf1 Abrigo, água, alimento, latrinas e, enfim, saúde. As crianças, claro, têm especial atenção. Todas devem ser vacinadas e alimentadas. A lista de doenças a que os refugiados estão expostos é imensa, mas a principal preocupação é o cólera. A doença é facilmente transmitida, e o seu efeito é devastador. A diarréia constante desidrata e mata em poucos dias. Por isso, há uma área especial designada ao tratamento da doença, isolada do resto e especialmente tratada para evitar infecções. Na base de qualquer tratamento estão rehidratação e alimentação, mas o tratamento está sempre à disposição quando necessário.

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    FINAL

    Terminamos a visita com um suspiro. Estamos longe de conseguir sequer uma idéia de como é viver nessas condições, mas já sentimos vontade de ajudar. Um dos objetivos foi alcançado: o grosso do dinheiro que sustenta a MSF vem de doadores particulares – famílias, empresas, governos. A organização deliberadamente recusa dinheiro de governos envolvidos nos conflitos, o que exclui os próprios Estados Unidos. “Isso é necessário para que mantenhamos a nossa independência”, explica o coordenador.Além do tratamento, a MSF é uma entidade com ponto-de-vista. Ela defende os direitos das pessoas a quem atende, e cobra atitude. Mais do que apenas aliviar o sofrimento dessas pessoas, os Médicos Sem Fronteiras falam ao mundo por elas. Em 1999, a organização recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho.

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