NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Brazilian Day, com um Z bem grande

    September 5th, 2006  |  Publicado em Uncategorized

    thumb_nr365_0029Pra aumentar o ibope deste site, uma bela bunda na capa. Mulheres conscientes, antes de levantarem as mãos espalmadas em minha direção, continuem lendo. Dia 3 de Setembro foi Brazilian Day em Nova York. O evento acontece anualmente há mais de 20 anos, sempre mostrando o que a cultura brasileira tem de "melhor". Esse ano teve, por exemplo, elenco da Globo e shows de Leonardo, Sandy & Júnior, Banda Calypso e Babado Novo. Quer programa melhor pra celebrar a Independência do Brasil?

    brazilny

    PRA AUMENTAR o ibope deste site, uma bela bunda na capa. Mulheres conscientes, antes de levantarem as mãos espalmadas em minha direção, continuem lendo, por favor. Dia 3 de Setembro foi Brazilian Day em Nova York. O evento acontece anualmente há mais de 20 anos, sempre mostrando o que a nossa cultura tem de "melhor". Esse ano teve, por exemplo, elenco da Globo e shows de Leonardo, Sandy & Júnior, Banda Calypso e Babado Novo. Quer programa melhor pra celebrar a Independência do Brasil?

    Vou deixar de lado os clichês de "(in)dependência" ou "independência de quem?", porque já estão muito batidos, mas no fundo a idéia é a mesma. Se alguém ainda não entendeu a ironia, melhor deixar pra lá e ir direto ao ponto. Bela imagem que passamos ao mundo, não? Bunda, cerveja e carnaval. Na lógica do dinheiro isso funciona muito bem: uma pequena amostra do que os gringos vão procurar no Rio em Fevereiro (e nem preciso dizer que a máquina do turismo sexual já está prontinha para atender à demanda).

    brazilnyNão, não quero Chico Buarque na Sexta com a 46. Aliás, deixa ele com as coroas lá em Sampa que está ótimo. Mas o Brasil está longe de ser todo ano a mesma coisa – Leonardo, Sandy & Júnior etc. E essa crítica não tem nada a ver com elitismo, ou pior, classemedianismo. Desde quando o Brasil tem cultura "de rico"? Desde quando rico brasileiro olha para o próprio país? Ok, menos generalizações. Mas a cultura genuinamente brasileira é de pobre, nasce da escassez. É a capoeira, o maracatu, o samba lá do morro, a viola do caipira, a lavadeira cantando e claro, também o brega, o popular, o sertanejo. O problema é que, no fundo, todas aquelas pessoas estão ali pra isso mesmo, pra ver os astros da TV, pra pular com a Sandy e chorar com o Leonardo, pra dizer "mãe, tô na Globo". 

    Há um sintoma comum a algumas das pessoas que vivem por aqui. Quase todas saíram do Brasil em busca do conforto que não tinham por lá; abriram mão de carreiras, família, para terem um pouco daquela vida que viam no cinema. Todos mantêm o orgulho de serem brasileiros – espalham bandeiras, vestem verde e amarelo – mas muitos vão mudar de assunto quando o papo incluir os problemas do país. Então fica esse orgulho de espectador, feliz de estar longe. Por experiência própria, fica difícil condená-los: é muito fácil se deixar cegar pelas "verdinhas". E não vou me alongar no assunto pra não pisar no próprio pé.

    Voltando à festa, só pra terminar. A parte boa fica por conta da comida – feijoada, pastel, acarajé não conta porque nem me arrisco – e do Guaraná Antarctica, que eu não bebia há mais de um ano. E fica também por conta da nossa famosa criatividade. Rodas de samba e capoeira pipocavam, para deleite da platéia e para o suspiro aliviado do fotógrafo, que até então se sentia um peixe fora d'água em sua própria festa.

    brazilny
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