NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Barata Double Stuf e as vítimas do capitalismo

    January 4th, 2006  |  Publicado em ETC.

    Sem conseguir resistir às tentações do consumo, caí na armadilha da propaganda. Na prateleira do mercado hispano estavam, lado a lado, o Oreo normal e a novidade, o Oreo Double Stuf. Não precisa me conhecer tanto pra saber qual eu escolhi.

    Ah, parênteses. todo mundo sabe o que é Oreo, né? Quando você era criança na década de 80, só existia o Negresco, que é da Nestlé, que já está no Brasil, pasmem, há 130 anos! (Só por curiosidade, o primeiro produto foi a Farinha Láctea, mais uma das minhas paixões de infância e, confesso, ainda hoje). Certo dia, com a abertura das pernas do país ao double stuffed apetite estrangeiro, chegou uma empresa chamada Kraft Foods, a maior empresa de alimentos dos EUA, e que, entre outras, comprou a Lacta e multinacionalizou até o BIS, que a concorrente suíça tentou copiar até agora mas não teve sucesso. A Kraft um dia teve a fantástica idéia de trazer o Oreo para o Brasil, produto famoso no estrangeiro e idêntico ao Negresco – mesmo sabor, preço e embalagem azul e branca. Isso, segundo o capitalismo, se chama concorrência. Fecha parênteses.

    O resto do nome – Double Stuf - nem precisa traduzir, já diz tudo. Segundo as informações nutricionais, cada porção de 29 gramas tem 7 de gordura! Ou seja, Double Stuf no pneuzinho! Ainda mais que aqui existe uma lei que praticamente obriga o cidadão a saborear o biscoito acompanhado de leite – integral, é claro.

    Acontece que o efeito, ao contrário do esperado, foi o oposto da propaganda, e minhas adiposidades (e a namorada) agradecem. Como toda pessoa de bom senso, eu exerço um certo apartheid ao comer biscoito recheado: separando o preto do branco (putz, nem acredito que disse isso). “E quando certa manhã ele despertou, após uma noite mal-dormida, achou-se em sua cama transformado em um imenso double stuffed biscoito.” Foi mais ou menos essa a sensação.

    Resultado: claro que eu não ia jogar o pacote de meio quilo e 4 dólares no lixo, mas digamos que passei a praticar uma discriminação positiva em favor da parte preta. E, a partir de agora (incluam nas promessas de Ano Novo), vou tomar mais cuidado com a propaganda.

    Aliás, mais coisa pra se pensar. O negócio mesmo é vender, porque se de um lado a indústria farmacêutica faz de tudo pra “salvar” o americano da obesidade, do outro a fome do Supersize é cada vez maior. Ou seja, o que importa é o consumo, seja de Oreo Double Stuf ou de remédio pra emagrecer. A lojinha do perdão é vizinha da banquinha da culpa.

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