NA RUA
paulo fehlauer, na terceira pessoa do plural.


    Gaza e a Terra Prometida

    December 27th, 2005  |  Publicado em Uncategorized

    Atravessei a Faixa de Gaza. E ela fica aqui mesmo nos Estados Unidos. Na minha antiga vizinhança, via todos os dias mulheres envoltas em panos, às vezes só com os olhos à mostra. No próprio prédio…

    Atravessei a Faixa de Gaza. E ela fica aqui mesmo nos Estados Unidos. Na minha antiga vizinhança, via todos os dias mulheres envoltas em panos, às vezes só com os olhos à mostra. No próprio prédio em que morava haviam vários(as). O engraçado era perceber como é inevitável a assimilação da cultura americana. E as culpadas, claro, são as crianças. Por causa delas e de toda a pressão sobre elas, os pais são obrigados a celebrar o Halloween, o Thanksgiving (Ação de Graças) e até o Natal. Tem que ter árvore, trick or treat e peru. Agora imaginem a cena: você abre a porta e vê um casal de crianças pedindo doces no Halloween. Normal, não fosse a burka que cobre parte do rosto da menina.

    Eu costumava usar a internet num Internet Café que existe lá em Bay Ridge. Os donos, claro, árabes.

    (Pausa. Sei que aqui corro o risco de cair no erro preconceituoso de colocar tudo no mesmo balaio. Aprendi no filme – altamente recomendado – Crash, do Paul Haggis, que persa não é árabe, o que já me coloca uma série de dúvidas sobre quem estou julgando. Bom, mas vocês me perdoam, certo?)

    Voltando ao Internet Café. Várias vezes peguei computadores configurados em árabe, e sempre ouvi o povo conversando pela webcam – em árabe, claro. Ainda mais estando aqui, não tem como não ser cruel e imaginar aquilo como uma célula da Al-Qaeda. Mas isso só na nossa pervertida cabeça ocidental e melhor não continuar pra não piorar.

    Chegando, enfim, ao ponto em que queria. O fato é que, de um dia pro outro, saí do mundo árabe e caí de pára-quedas logo aonde? No meio de um kibutz! Bom, não é exatamente assim, mas aqui em Williamsburg encontrei a vizinhança mais judaica e ortodoxa que já pude imaginar. Ouvi falar que os EUA têm mais judeus que Israel, e depois de chegar aqui tenho certeza. Me senti até pressionado, sabe? À minha volta, só via longas roupas pretas, chapéus pretos, barba e… como se chamam aqueles cachinhos que pendem sobre o rosto deles? É interessante observar esses traços que afirmam uma identidade. Se for pensar bem, é como nós que vestimos um jeans Levi’s e calçamos um Adidas pra mostrar ao mundo a nossa opção pela cultura capitalista ocidental. Tudo no mesmo balaio…

    Uma das primeiras aventuras, fazer compras. Imagine um mundo paralelo, com os mesmos produtos, mas de marcas que você nunca ouviu falar, todos com um selo atestando a “produção sob supervisão estrita de um rabino”. Comprei só algumas coisas e corri pra minha Coca-cola e produtos Nestlé no mercado dos hispanos (onipresentes, pra variar).

    Definitivamente, esses (os judeus, não os hispanos) são muito mais fiéis à tradição do que os árabes de Bay Ridge. Não sei se é opção ou tradição, mas eles não lembram em nada os famosos banqueiros judeus dos Estados Unidos. Vivem em casas simples, andam em carros simples e parecem usar as mesmas roupas todos os dias. Sem falar no ônibus amarelo de escola americana cheio de chapéus pretos que passa pela rua de vez em quando (isso logo vira foto).

    Tudo isso pra dizer que mudei de casa, mas de uma forma que não pareça um monólogo com meu diário. E também pra mostrar como essa cidade é maluca. Tem o mundo todo mesmo aqui dentro, e eles convivem bem, apesar das claras diferenças sociais e culturais entre os grupos, e apesar dos conflitos existentes. Consegui até ver um judeu de cachinhos e tudo entrando no café dos árabes!

    De certa forma, o que os une é que todos estão aqui pelo mesmo motivo, sejam latinos, asiáticos, árabes, persas ;-) ou judeus. Um dia disseram que essa era a terra dos sonhos, como a Terra Prometida de Moisés. E não vou negar que os sonhos são muito mais fáceis de serem realizados por essas bandas. Ele custa caro pra todo o resto do mundo, e o lado perverso é que é muito fácil se inebriar nessa cultura e se esquecer do tal resto. Não os culpo. É necessário muita convicção pra não se deixar levar. Calma que isso não quer dizer que eu vou ficar. Eu volto, não se preocupem… e logo. ;-)

    P.S.: Já que falei no filme, aqui vai o diálogo de abertura, só pra pensar.
    Cenário: acidente de carro. “It’s the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We’re always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.”

    Em tradução livre: “É o sentido do toque. Em qualquer cidade real, você caminha. Você passa por pessoas, pessoas trombam em você. Em Los Angeles, ninguém te toca. Estamos sempre atrás dessa barreira de metal e vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque que batemos uns nos outros, só para sentirmos alguma coisa.”

    + Pra vocês se situarem, vejam o caminho da mudança, by Yahoo Maps.

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